Seção brasileira do Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores

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Lições dos Panteras Negras Imprimir E-mail
Hannah Sell - 25 de novembro de 2008

Quarenta anos atrás o Partido dos Panteras Negras pela Auto-Defesa foi fundado em Oakland, Califórnia. Ele representou o auge da vasta rebelião contra o racismo e a pobreza que varreu os EUA nos anos 50 e 60. examina as lições a serem aprendidas de sua ascensão e queda. No auge de sua influência, J Edgar Hoover, chefe do FBI, descreveu os Panteras como "a ameaça número 1 à segurança dos EUA”.

Quarenta anos depois, Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, ainda os considera uma ameaça. Ele se recusou a comutar a pena de morte para Stanley ‘Tookie’ Williams porque não acreditava que ele tinha se ‘reformado’. Tookie foi um fundador da notória gangue Crips, que desde então mudou sua perspectiva e dedicou sua vida à desencorajar os jovens de se unirem a gangues. A principal justificativa de Schwarzenegger em se recusar a acreditar que Tookie tinha mudado é que este dedicou seu livro ao heróico George Jackson, o Pantera e revolucionário que foi baleado e morto por guardas da prisão em 1971. Mas enquanto a classe dominante relembra os Panteras com medo, eles serão vistos como heróis por uma nova geração de jovens que entram na luta.

O racismo e pobreza enfrentados pelos americanos negros nos anos 50 e 60 fundamentalmente não mudaram hoje. É verdade que agora há uma classe média maior e mais opulenta do que era o caso então. Uma fina camada até mesmo entrou na elite da sociedade dos EUA – resumida pela posição de Condoleezza Rice como secretária de estado no governo Bush. A classe dominante nos EUA respondeu à revolta nos anos 50 e 60 com uma decisão consciente de desenvolver uma classe média negra para agir como um freio sobre futuros movimentos, para criar uma versão do “Sonho Americano” para os negros.

Contudo, o sonho americano continua um mito para os trabalhadores americanos negros, num grau ainda maior do que é para os trabalhadores brancos. Para grandes setores da população negra baixos salários e pobreza continuam a norma. Segundo estatísticas oficiais, em 2004, 24.7% dos negros eram classificados como pobres, comparados à 8.6% de brancos não-hispânicos. O desemprego é duas vezes mais alto entre os negros do que entre os brancos; e estão duas vezes mais sujeitos a morrer de doenças, acidente ou assassinato em cada etapa de suas vidas. O furacão Katrina desnudou a realidade da vida nos EUA no século 21 – foram os pobres que foram deixados para trás na inundação, e a maioria dos pobres eram negros.

Nos anos 60, como George Jackson disse. Os “homens negros nascidos nos EUA e felizes o suficiente para viver depois da idade de 18 [foram] condicionados a aceitar a inevitabilidade da prisão”. O próprio Jackson foi sentenciado “de um ano ao resto da vida” por roubar um posto de gasolina. Hoje, a situação pouco mudou para os jovens negros trabalhadores. Hoje, cerca de 11% deles estão na prisão. Em muitos estados, passar um tempo na prisão significa ser permanentemente negado ao direito de votar. De fato, o sufrágio universal não existe para os homens negros. Nos anos 60, como hoje, o sistema prisional brutalizou milhões de jovens negros. Contudo, naquele período de radicalização, para muitos a prisão também agiu como uma universidade de idéias revolucionárias. Jackson explicou: "Eu encontrei Marx, Lenin, Trotsky, Engels e Mao quando entrei na prisão e eles me redimiram”. Os Panteras, muitos dos quais foram presos por suas atividades, ganharam enorme apoio nas prisões dos EUA.

O capitalismo americano no século 21 prejudica a classe trabalhadora negra. A história dos Panteras Negras, portanto, não tem apenas um interesse histórico, mas possui importantes lições para uma nova geração que entra na luta, especialmente nos EUA, mas em alguns graus internacionalmente.

Não foi coincidência que o “movimento pelos direitos civis” surgiu nos anos 50. A 2ª Guerra Mundial teve um efeito. Não apenas milhares de soldados negros lutaram e morreram pelo imperialismo dos EUA, foram golpeados pela óbvia hipocrisia da propaganda de guerra. Eis uma classe capitalista afirmando que tinha ido à guerra contra o racismo dos nazistas, enquanto em seu próprio país o racismo violento era a norma. Junto a isso, o capitalismo dos EUA entrava num prolongado período de prosperidade econômica. Isto significava que muito mais negros estavam se mudando do sul rural para as cidades, principalmente no norte. Em 1940, metade da população negra vivia nas cidades. Em 1970, era três quartos. Tornar-se parte da classe operária – mudando de isoladas comunidades rurais para enormes centros urbanos – aumentou a confiança e capacidade de luta. A crescente riqueza e padrões de vida mais altos da classe média branca tornaram a pobreza e degradação da vasta maioria dos negros parecer ainda mais completa do que antes. Finalmente, as lutas de libertação das massas na África e Ásia, que estavam tendo sucesso em derrubar o domínio colonial, fornecia a inspiração.

À medida que a luta se desenvolvia, mudava a perspectiva dos que tomavam parte nela. A Lei dos Direitos Civis passou em 1965. Mas, embora fosse uma concessão legal, não alterava a realidade da pobreza e brutalidade policial. Até Martin Luther King, que inicialmente via o papel do movimento usar métodos pacifistas para pressionar os Democratas a garantir direitos civis, mudou sua perspectiva no período anterior ao seu assassinato. Quando King foi violentamente surrado pela policia em Birmingham, Alabama, em 1963, tumultos explodiram em todo o país. Em meio à escombros, King corretamente declarou os distúrbios como “uma revolta de classe dos sub-privilegiados contra os privilegiados”. Em 1967, ele foi forçado a concluir: "Estamos entrando numa era que pode ser uma era de revolução... que bem pode fazer a alguém ser integrado às lanchonetes se ele não pode comprar um hambúrguer?" Em particular, ele começou a levantar a necessidade de apelar aos trabalhadores brancos e organizar uma luta baseada na classe. Ele estava apoiando uma greve quando foi assassinado. 

Fermento & formação

Na base do movimento havia um fermentar de discussões à medida que os ativistas tentavam elaborar os meios mais efetivos de luta. As idéias pacifistas eram cada vez mais rejeitadas, especialmente pela geração mais jovem. Da agitação destes eventos, se desenvolveram as idéias do Poder Negro. Em muitos sentidos, o movimento do Poder Negro foi um passo à frente. Foi uma ruptura com o pacifismo, e com a orientação rumo aos Democratas, um partido dos grandes negócios. Ao mesmo tempo, ele tinha limitações, especialmente suas matizes separatistas e a falta de um programa claro.

Malcolm X se afastou do nacionalismo negro do movimento Poder Negro, e tirou conclusões anti-capitalistas num grau maior do que outros lideres, dizendo claramente que “não existe capitalismo sem racismo”. Malcolm X foi morto em Fevereiro de 1965. Os Panteras Negros foram fundados no final de 1966 e se viam como partindo de onde Malcolm X parou. Os dois membros fundadores, Huey P Newton e Bobby Seale, se envolveram na luta numa época em que se sentia que não havia um caminho claro adiante. Uma busca por idéias ocorria entre a nova geração de ativistas. Newton e Seale começaram sua busca, como muitos daquela geração, com os “nacionalistas culturais”, mas rapidamente descobriram o que buscavam. Seus desacordos se centravam na questão de classe desde o inicio. Seale explica isto em sua autobiografia, Seize the Time, como Newton começou a argumentar contra a idéia de comprar de empresas negras: “Ele explicou muitas vezes que se um empresário negro cobra de você os mesmos salários ou mais altos, mesmo salários maiores que o empresário branco explorador, então ele mesmo não passa de um explorador”.

Os Panteras rejeitavam o separatismo dos nacionalistas culturais e foram fundados com a magnífica concepção: “Não combatemos racismo com racismo. Combatemos racismo com solidariedade. Não combatemos o capitalismo explorador com o capitalismo negro. Combatemos o capitalismo com socialismo básico. E não combatemos o imperialismo com mais imperialismo. Combatemos o imperialismo com o internacionalismo proletário”.

Em dois anos, os Panteras se espalharam como fogo na pradaria, de um punhado em Oakland, Califórnia, para núcleos (células) em cada grande cidade dos EUA, vendendo 125,000 exemplares por semana de seu jornal, O Pantera Negro. Tendo ganhado um apoio fenomenal em seus primeiros anos, os Panteras em declínio igualmente rápido, dilacerados por divisões. Enfrentaram uma enorme repressão policial. A classe dominante estava aterrorizada com os Panteras e partiu para esmaga-los. Estima-se que o “quadro” ou âmago da organização dos Panteras nunca passou de mil, mas em uma época 300 deles enfrentavam processos. Trinta e nove Panteras foram baleados nas ruas ou em suas casas pela policia. Junto a isso, a policia empreendeu uma vasta infiltração nos Panteras. Contudo, não foi apenas a brutal repressão estatal a responsável pelo fim do Partido dos Panteras Negras, mas também seu fracasso em adotar uma abordagem marxista completa.

Os líderes dos Panteras estavam num nível superior ao das organizações que vieram antes, descrevendo-se a si mesmos como “marxistas-leninistas”. Os melhores dos Panteras lutaram heroicamente para achar o melhor caminho para conquista a libertação dos afro-americanos, e chegaram a entender que isto estava ligado à luta pelo socialismo. Enfrentaram todos os problemas, todavia, que surgiam do fato que seu movimento se desenvolveu antes de uma luta de massas generalizada da classe operária dos EUA. Eles não foram capazes, no curto período de sua influência de massas, de elaborar plenamente como suas metas poderiam ser atingidas.

O Programa dos Panteras

A influência do Stalinismo teve um efeito enormemente desorientador sobre o movimento. E mais de um pouco de responsabilidade descansa sobre aquelas organizações, especialmente o SWP americano, que se descreviam como trotskistas, mas iam à reboque do movimento Poder Negro, não fazendo nada para ligar as genuínas idéias do marxismo aos ativistas negros radicais. De fato, ao invés de ajudar os Panteras a desenvolver seus métodos e programa, o SWP americano até criticou os Panteras por se atreveram argumentar contra o racismo dos nacionalistas culturais: “Aquela concepção, de que é possível os negros serem racistas, sempre teve que ser combatida pelo movimento nacionalista desde o primeiro despertar da consciência negra”.

A maior força dos Panteras foi que eles lutaram por uma solução de classe, ao invés de raça, para os problemas dos afro-americanos. Contrastem a atitude do SWP com a de Bobby Seale: "Os que querem encobrir a luta com diferenças étnicas são os que estão ajudando a manter a exploração das massas. Nós precisamos de unidade para derrotar a classe dos patrões – toda greve mostra isto. A bandeira de cada organização declara: ‘Unidade é força’”.

Os Panteras foram fundados em torno de um programa de 10 pontos: O Que Queremos e O que Acreditamos. A primeira demanda era: “Queremos liberdade. Queremos o poder para determinar o destino da comunidade negra. Acreditamos que o povo negro não irá se libertar até que sejamos capazes de determinar nosso destino”. A segunda era por pleno emprego, a terceira pelo fim à roubalheira do homem branco sobre a comunidade negra, a quarta por habitação decente e um sistema educacional “que exponha a verdadeira natureza desta sociedade americana decadente". Outras demandas incluíam um fim à brutalidade policial, da isenção do serviço militar aos homens negros, e para “que todo homem negro, quando levado ao tribunal, seja julgado por um júri de seu grupo ou por pessoas das comunidades negras”.

No seu inicio, eles combinavam a campanha em torno do programa de 10 pontos organizando a defesa de sua comunidade local contra a brutalidade policial. Durante este período, a principal atividade dos Panteras era “patrulhar os porcos”, isto é, monitorar a atividade policial e tentar assegurar que os direitos civis dos negros fossem respeitados. Quando os Panteras viam a policia parar um motorista negro, paravam e observavam o incidente, normalmente com armas à mão. Naquela época, era legal na Califórnia carregar armas dentro de certos limites e os Panteras afirmavam seu direito de o faze-lo, citando as seções relevantes da lei. Outro aspecto do trabalho dos Panteras foi a criação de programas médicos, de alimentação e roupas nas comunidades trabalhadoras negras pobres. Os Panteras também tomavam uma posição clara e positiva sobre os direitos das mulheres, e a direção lutava para assegurar que as mulheres fossem capazes de jogar um papel pleno no partido.

Enfatizavam que a comunidade negra tinha que ter suas próprias organizações, e a militância nos Panteras era aberta apenas às pessoas negras. Contudo, argumentavam que podiam trabalhar junto com organizações baseadas em outras comunidades. De fato, várias organizações foram fundadas (muitas vezes inicialmente em torno de ex-membros de gangues) nas comunidades operárias urbanas, que se modelavam nos Panteras. Estas incluíam uma organização porto-riquenha baseada em Nova Iorque, os Jovens Lordes, e uma organização branca, os Jovens Patriotas, em Chicago.

Contudo, foi o movimento de massas contra a guerra do Vietnã que mais claramente mostrou aos Panteras que setores dos brancos estavam preparados para lutar. Como diz Huey P Newton: “Os jovens revolucionários brancos levantaram o grito para a retirada das tropas do Vietnã, a saída da América Latina, a retirada da República Dominicana e também a retirada da comunidade negra, ou a colônia negra. Então se tem uma situação na qual os jovens revolucionários brancos estão tentando se identificar com o povo das colônias e contra o explorador”. .

Os Panteras foram, em geral, inspirados pelas lutas contra o domínio colonial que ocorriam no mundo todo. Sua atitude com o Vietnã era clara. Em seu apelo aos soldados negros eles declaravam: "É correto que os vietnamitas devam se defender e defender sua terra, e lutar pela autodeterminação, porque eles NUNCA nos oprimiram. Eles NUNCA nos chamaram de ‘Crioulos’”.

A revolta contra a guerra do Vietnã teve um grande efeito na comunidade negra. Em geral, foi a classe operária que sofreu mais com a conscrição. Os Panteras que foram conscritos criaram grupos no exército. Eles trabalharam num solo fértil. Uma pesquisa sugeriu que 45% dos soldados negros no Vietnã estariam preparados a pegar em armas para servir à justiça em casa.

A revolta em torno do Vietnã petrificou a classe dirigente dos EUA. Hoje, apesar de sua necessidade desesperada por mais tropas para continuar a ocupação do Iraque, ela não ousa reintroduzir a conscrição, tais são as memórias, entre a classe dominante e os americanos comuns, do Vietnã e suas conseqüências.

Mas, embora os Panteras saudassem a radicalização da juventude branca no movimento anti-guerra, encontrar aliados concretos para cooperar se provou mais difícil. Os Panteras sairam nas eleições com o Partido da Paz e da Liberdade (PFP), que fazia campanha primariamente contra a Guerra do Vietnã e a opressão das comunidades negras. Em 1967, quando Huey estava na prisão, os Panteras trabalharam com o PFP para “Libertar Huey” (‘Free Huey’).

Contudo, nem o PFP, nem qualquer uma das organizações com que os Panteras trabalharam, tinha uma base significativa entre a classe operária branca. Newton reconheceu isto, explicando em 1971: "Nossa ligação com os radicais brancos não nos deram acesso à comunidade branca, porque eles não guiavam a comunidade branca”.

Poucas ligações com os trabalhadores

Nem era a principal orientação dos Panteras a classe trabalhadora organizada. Eles organizaram “facções” dentro dos sindicatos, como relata Bobby Seale, “para ajudar a educar o resto dos membros do sindicato para o fato que eles podem também ter uma vida melhor. Queremos que os trabalhadores entendam que devem controlar os meios de produção, e que devem começar a usar seu poder para controlar os meios de produção, para servir todo o povo”. 

Esta era uma concepção correta, mas, na realidade, o trabalho sindical era uma parte muito pequena do que os Panteras faziam. Eles conscientemente se orientavam no principal para os setores mais oprimidos e desempregados da comunidade negra – o que eles descreviam, usando a fraseologia de Marx, como o lumpenproletariado. É correto que estes setores mais desesperados da sociedade são capazes de incriveis sacrificios para a luta e, como os Panteras argumentavam, que é importante ganhar estes setores mais oprimidos para um partido revolucionário. Isso foi particularmente o caso, dado as horrendas condições sociais em que a maioria dos americanos negros era forçado a viver.

A urbanização que acompanhou o boom do pós-guerra levou a uma migração de massa de trabalhadores negros para as cidades industriais do norte. Eles chegaram para se verem vivendo em guetos, numa pobreza horrenda. Em muitas áreas, uma maioria estava desempregada. Não obstante, os trabalhadores negros formavam uma parte significativa da força de trabalho, e, por causa de seu papel na produção, a classe operária industrial em particular tem um papel chave na transformação socialista da sociedade.

Os trabalhadores negros estiveram à frente das melhores tradições da classe operária dos EUA. Antes da guerra, muitos negros foram influenciados pelas grandes lutas sindicais dos anos 20 e 30, especialmente a massiva onda de greves que estourou em 1934, incluindo ‘sit-downs’ e greves gerais municipais (a rebelião dos Teamsters em Minneapolis e o ‘sit-down’ de Auto Lite em Toledo, Ohio). Campanhas de organização em massa entre os operários fabris e trabalhadores não-qualificados deram ascensão ao Congresso de Organizações Industriais (CIO), formado em 1936. Os novos sindicatos industriais (United Automobile Workers, United Mine Workers, United Steel Workers, etc) imediatamente atrairam mais de 500,000 membros negros, diferente dos antigos sindicatos artesanais da Federação Americana do Trabalho. Esta experiência foi usada com bons efeitos durante a guerra, por exemplo, na greve de 1941 pelo sindicato negro dos carregadores ferroviários, a Irmandade dos Carregadores dos Trens Dormitórios, que forçou o governo a acabar com a discriminação racial aberta nas fábricas federais de produção de guerra.

Com uma orientação correta, sem dúvida existia o potencial para os Panteras ganhassem o apoio de setores significativos da classe trabalhadora, incluindo uma camada dos trabalhadores brancos. É claro, existiam todos os tipos de preconceitos racistas, que tinham que ser combatidos, entre setores dos trabalhadores brancos, incluindo os dos sindicatos. Contudo, o fim do boom do pós-guerra estava levando a um crescente desemprego e à maior intensificação do trabalho para todos os setores dos trabalhadores. Embora a classe operária negra fosse a mais combativa, tendo enfrentado as piores condições, a classe operária branca também começava a se radicalizar.

A falta de uma base entre a classe operária organizada foi um elemento que aumentou a tendência à um regime autoritário nos Panteras. Também aumentou a tendência, que sempre existiu, de tentar pegar atalhos substituindo eles mesmos a massa com atos corajosos, como a demonstração armada no congresso estadual da Califórnia.

Foi a influência do stalinismo que em grande parte foi responsável pelo fracasso dos Panteras de ter uma orientação consistente para a classe trabalhadora. A direção dos Panteras foi particularmente inspirada pelas revoluções chinesa e cubana, ambas lideradas por lideres guerrilheiros pequeno-burgueses baseados no campesinato, com a classe operária jogando um papel passivo. Junto a isso, os Panteras, de novo seguindo os stalinistas, e baseados em sua própria experiência da brutalidade do estado americano, falsamente concluíam que o fascismo estava na ordem do dia nos EUA. Isto, combinado com as desesperadoras condições dos negros, criava uma impaciência esmagadora por uma solução imediata, devido à falta de uma estratégia consistente para ganhar pacientemente setores mais amplos da classe trabalhadora.

Contudo, o SWP americano também carrega uma responsabilidade por fracassar em apresentar um programa que pudesse ganhar os setores mais avançados da classe operária dos EUA. Apesar da falta de genuina democracia operária, ele era inteiramente acrítico à Cuba. Nos EUA, ele tomou parte nos movimentos anti-guerra e Poder Negro, mas não fizeram absolutamente nenhuma tentativa de levar estes movimentos além do nível existente de desenvolvimento. A existência dos Panteras Negras, apesar de suas limitações, mostrou na prática como a consciência se desenvolve como resultado da luta contra a realidade brutal do capitalismo. Continua uma tragédia que não existisse nenhum partido marxista completo que pudesse oferecer aos Panteras, e à centenas de milhares que foram tocados por eles, um caminho à frente.

Um estado negro separado?

Parte da explicação do lamentável papel do SWP americano está em sua incompreensão dos escritos de Leon Trotsky nos anos 30 sobre o nacionalismo negro. Trotsky se baseou na abordagem desenvolvida por Lênin e os bolcheviques em relação à questão nacional e ao direito das nações à autodeterminação. Lênin, em particular, entendeu plenamente que para realizar vitoriosamente uma revolução na Rússia, era vital lutar pelo direito à autodeterminação, incluindo até o direito de se separar, para muitas nacionalidades que sofriam a brutal repressão da Rússia czarista. Apenas sobre esta base seria possivel lutar com sucesso pela unidade máxima da classe operária através das divisões nacionais e religiosas. Argumentar pelo direito de se separar, contudo, não significa necessariamente argumentar pela separação. De fato, a abordagem extremamente elaborada e sensível de Lênin significou que, no período imediatamente posterior à revolução, a República Federativa Socialista Russa incluía muitas das nacionalidades que eram oprimidas pelo czarismo, mas numa base livre e voluntária.

Trotsky levantou pontos sobre estas questões em discussões com seus apoiadores americanos nos anos 30, após o Partido Comunista Stalinista ter sugerido a idéia de um estado negro separado nos EUA. Os seguidores de Trotsky inicialmente reagiram rejeitando completamente esta demanda e contrapondo-a à necessidade de unidade de classe. Trotsky pontuou que, numa certa etapa, em face da brutal repressão, a demanda por um estado separado – isto é, o desenvolvimento de uma consciência nacional – poderia surgir entre amplas camadas e, se o fosse, os marxistas teriam que apoiar o direito dos negros dos EUA a um estado.

O método da análise de Trotsky era correto. Mas as circunstâncias mudadas significavam que a demanda por um estado separado dentro do território dos EUA não surgiu. Quando Trotsky escreveu havia uma maioria dos negros em dois estados do sul dos EUA, Mississipi e Alabama, e a maioria dos negros vivia no sul. Em 1970, três quartos viviam nas grandes cidades, e a maioria no norte. Embora a consciência negra fosse, e ainda é, muito mais forte, era então menos provável que desenvolvesse a demanda por uma nação separada.

Contudo, mesmo se esta fosse a consciência do povo negro, não teria desculpa a abordagem do SWP americano. Trotsky enfatizou o papel da classe operária como a única força capaz de ganhar a libertação nacional como parte da luta pelo socialismo. Ele explicou a importância da classe operária tomar uma posição independente, e que era um profundo erro contar com os lideres burgueses e pequeno-burgueses dos movimentos nacionalistas. Ao seu crédito, os Panteras Negras estiveram muito mais próximos de entender estes pontos do que os auto-professados trotskistas do SWP americano, que seguiam acriticamente atrás das idéias pequeno-burguesas dos nacionalistas culturais.

Relevância para a Grã-Bretanha

Hoje na Grã-Bretanha, a situação que enfrentamos é muito diferente da que existia nos EUA nos anos 60. Mas há lições a serem aprendidas. A história diferente da Grã-Bretanha significa que, de um lado, houve um nível maior de integração entre as comunidades trabalhadoras. A pobreza nos EUA tem um elemento “racial” mais agudamente definido que na Grã-Bretanha. Não obstante, no geral, os trabalhadores das minorias étnicas sofrem desemprego e miséria piores que a classe operária como um todo. Por exemplo, em 1999, 28% das famílias brancas viviam abaixo da linha de pobreza, comparados com 41% das famílias afro-caribenhas, e 84% das famílias de Bangladesh. De outro lado, a classe dominante britânica nunca conseguiu desenvolver uma elite negra, como a classe dominante dos EUA após os levantes dos anos 50 e 60.

Embora todas as minorias étnicas sofram racismo, na Grã-Bretanha são os muçulmanos que estão no fio da navalha do racismo e preconceito no último período. A história dos muçulmanos na Grã-Bretanha tem sido de pobreza e discriminação. Historicamente, esta discriminação é apenas uma das muitas facetas do racismo da sociedade capitalista. No último período, contudo, e especialmente desde o horror do 11 de setembro de 2001, sem dúvida o preconceito antimuçulmano, a islamofobia, subiu dramaticamente, embora outras formas de racismo continuem, os muçulmanos enfrentam hoje a mais aguda manifestação de discriminação. A participação do governo nas brutais guerras de subjugação contra o Afeganistão e Iraque, ambos países de maioria muçulmana, com toda a conseqüente propaganda de calunia contra os povos destes países, aumentou ainda mais a islamofobia. A política externa do governo também enraiveveu enormemente os muçulmanos britânicos.

Embora haja grandes diferenças, há uma limitada comparação entre a raiva e radicalização dos muçulmanos na Grã-Bretanha hoje e a raiva dos negros dos EUA no inicio do movimento pelos direitos civis. O pano de fundo geral é diferente. Após o colapso dos grotescos regimes stalinistas há mais de uma década, que os capitalistas falsamente igualam com o socialismo genuíno, as idéias socialistas ainda não são vistas como uma alternativa viável pela massa da classe operária, incluindo muitos muçulmanos. Num plano internacional, não há as mesmas lutas de massas pela libertação nacional que existiam nos anos 50 e 60 e que inspirou a revolta nos EUA. Em sua ausência, as idéias do islã político de direita, incluindo as idéias e métodos altamente reacionários de organizações terroristas como a al-Qa’ida, têm preenchido o vácuo. A vasta maioria dos muçulmanos na Grã-Bretanha repelem a al-Qa’ida, mas uma pequena minoria está tão alienada que está disposta a apoiar tais ideais.

Não obstante, muitos muçulmanos foram tocados pelo movimento anti-guerra que, em seu auge, viu dois milhões de pessoas de cada grupo religioso e étnico marchar nas ruas de Londres. Deve ser lembrado que as idéias socialistas eram uma minoria muito pequena no inicio do levante negro nos EUA, mas cresceram dramaticamente como resultado de sua colisão com o capitalismo dos EUA. Existe hoje o potencial para ganhar os mais receptivos trabalhadores e jovens muçulmanos para as idéias socialistas. Com base nos eventos, será possível ganhar a massa no futuro. À médio e longo prazo, a ausência do stalinismo irá ajudar a ganhar o apoio para as idéias do genuíno socialismo. Nos anos 60, embora o stalinismo fosse um certo pólo de atração, ele também tinha um enorme efeito deturpador sobre as idéias socialistas adotadas nos EUA e outros lugares.

Idéias socialistas

Contudo, para ganhar qualquer setor da classe operária para o socialismo genuíno, é necessário apresentar um programa genuinamente socialista. Infelizmente, a mais proeminente organização socialista no movimento antiguerra, o Socialist Workers’ Party (SWP), não teve esta abordagem. Por exemplo, embora na direção da Coalizão Stop the War, o SWP decidiu não levantar as idéias socialistas de suas plataformas, e impediu outros socialistas de terem a oportunidade de fazer isso.

O Respect, o partido do SWP britânico co-fundado com o MP George Galloway, saiu do movimento anti-guerra e teve algum sucesso eleitoral, especialmente ao reeleger George Galloway como MP por Bethnal Green & Bow. Contudo, ele se concentrou principalmente em um setor da sociedade, a comunidade muçulmana, que é importante ganhar, mas não às custas de alcançar outros setores da classe operária. Se ele continuar a se desenvolver na direção de ser visto como um “partido muçulmano”, pode empurrar outros setores da classe operária para longe e até reforçar inadvertidamente as idéias racistas, enquanto fortalece a idéia incorreta de que a comunidade muçulmana pode se libertar agindo como um bloco muçulmano.

Pode o SWP tentar tirar uma comparação com os Panteras Negras para apoiar sua estratégia equivocada? Além de importantes diferenças sociais e políticas (não menos de que os muçulmanos constituem 2.8 % da população da Grã-Bretanha, comparados aos negros, 11% nos EUA), há a questão crucial de para onde a flecha está apontando. Os Panteras Negras se moveram do nacionalismo negro para uma posição classista. No futuro, é possível que grupos organizados de trabalhadores muçulmanos se movam numa direção similar, talvez querendo se filiar, ou trabalhar junto com um futuro partido operário. Isto seria um passo à frente. Uma das razões porque argumentamos que novos partidos operários de massas devam ter estruturas federais é precisamente por permitir que diferentes grupos de trabalhadores mantenham suas próprias organizações enquanto trabalham juntos para construir um partido amplo. Contudo, a situação no Respect é muito diferente. A maioria dos ativistas no Respect são socialistas de longa data, mas, longe de usar a oportunidade de ganhar trabalhadores muçulmanos para as idéias socialistas, eles abaixam sua bandeira. Infelizmente, em sua falta de uma abordagem principista há uma comparação com os erros de seus homônimos, o SWP americano.

A tragédia dos Panteras foi que, tendo falhado em desenvolver uma abordagem marxista completa, apesar de seus melhores esforços, eles entraram em rápido declínio. As dificuldades dos Panteras levaram alguns, especialmente aqueles em torno de Eldridge Cleaver, a se voltarem para o beco sem saída do terrorismo. Hoje, na Grã-Bretanha, vemos uma pequena minoria da juventude muçulmana tomar esta via equivocada. Contudo, com base nas derrotas futuras, haverá o perigo de que um grande número, de todas as minorias étnicas, se voltem nesta direção por não poderem ver nenhum outro meio efetivo de luta. A construção de uma alternativa socialista de massas é o único meio efetivo de cortar este processo. Não obstante as limitações dos Panteras, eles mostram a determinação da camada avançada de trabalhadores pensantes, uma vez engajados na luta, de encontrar uma rota para o genuíno socialismo. Mesmo enquanto Cleaver e outros entraram na via do terrorismo, Newton e outros tentaram, embora sem sucesso, re-orientar os Panteras. 

Depois, Newton refletiu sobre seus erros: “Éramos vistos como um grupo militar ad-hoc, fora da comunidade e muito radical para ser parte dela. Nós nos víamos como a vanguarda revolucionária e não entendemos plenamente que apenas o povo pode criar a revolução. E por isto o povo ‘não seguiu nossa mão para apanhar a arma’”.

Assim como Newton e Seale se colocaram nos ombros de Malcolm X, as futuras gerações de jovens e trabalhadores negros irão tirar todas os pontos fortes dos Panteras e construir a partir disso para criar um partido capaz de implementar a transformação socialista da sociedade.      

 
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